Um corpo que cai no labirinto

O leitor Artur Lins nos contou de uma experiência que teve e que achamos bacana compartilhar. 

Estava lendo o Estrangeiro no labirinto e fez uma pausa para assistir ao filme Um corpo que cai (1958), de Alfred Hitchcock. Segundo Artur, a experiência deu um barato, pois imagens do livro interagiam com o filme, que já havia assistido antes. 

Quem quiser fazer o teste e ver do que Artur está falando, passe aqui depois para dizer como foi!

Segundo teaser do Estrangeiro no labirinto.

Trailer do Estrangeiro no labirinto.

Há saída do labirinto?

Estrangeiro no labirinto, romance de Wellington de Melo, desafia os limites de gênero em narrativa bem armada e não se esquiva de discutir o mundo de dentro e de fora.

Pela assessoria de divulgação

Wellington de Melo, autor de cinco livros de poemas, lança seu primeiro romance, Estrangeiro no labirinto (356 páginas, Confraria do Vento, (http://www.confrariadovento.com/). Após trabalho de sete anos, de Melo entrega ao leitor uma obra madura, intrigante, cujo título remete não apenas ao labirinto narrativo polifônico, mas à experimentação, cuja linguagem passa a ser um pouco também estrutura do livro. E isso constrói para o romance uma atmosfera onde o leitor vai naturalmente se deixando vencer por ela.

Um juiz acusado de homofobia ao julgar o assassinato de um famoso arquiteto, mas que esconde um segredo ainda mais sombrio; um matador de aluguel que volta à casa dos pais mortos para acertar as contas com seu passado; uma prostituta viciada em crack que se vê presa em um labirinto de palavras enquanto vozes anônimas tentam explicar a natureza de um livro que supostamente aprisiona seus leitores. Personagens que julgam o destino aleatório, sem entender certa ordem no caos.

Física quântica, psicanálise e ocultismo, o livro visita polêmicas e incômodos como a pedofilia, a violência, uso e abuso da grana pública de ongs para interesses privados, sob o discurso conservador que algumas elites tentam ocultar.  Bom, nesse ponto o leitor poderá notar que tudo é mais real que mítico, quando puxar o cordão e começar a ler/andar.

A narrativa é firme e se vê a mão do poeta que é Wellington de Melo cuidando da linguagem, em pontos precisos.

Estrangeiro no labirinto não é livro de quem escreve preocupado com classificações. Nem de quem lê envolvido pelos rótulos dos gêneros. Em cinco partes, o romance se remete à árvore da vida da cabala, e é para ser lido ao azar, ou à sorte das cartas do tarô. A narrativa é construída por diferentes narradores ou “cronistas”, mas mais ainda pelo próprio leitor. Cenas que parecem iguais. Universos paralelos. Uma engrenagem quântica de possibilidades, livro que jura aprisionar seus leitores. E consegue.

SERVIÇO

Livro: Estrangeiro no labirinto
Autor: Wellington de Melo
Editora: Confraria do Vento
356 páginas

Lançamento:
18 de dezembro, a partir das 18h
Centro Cultural dos Correios
R. Marquês de Olinda, 262 – Bairro do Recife

Bastidores do book trailer do Estrangeiro no labirinto
Bastidores do book trailer do Estrangeiro no labirinto

Bastidores do book trailer do Estrangeiro no labirinto

Tease me!

Nesses dias deve sair o teaser do Estrangeiro no labirinto. Vídeo feito pela Candieiro Produções, do querido Wilson Freire. Aguardem!

Quarto de despejo no labirinto

Uma das coisas mais difíceis no processo de escrita do Estrangeiro no labirinto foi a construção da voz da personagem da prostituta. Foi um narrador que apareceu, tal como está hoje, em 2009.

Havia viajado com o Urros Masculinos (Bruno Piffardini e Artur Rogério) para a Balada Literária e lembro que Bruno leu um trecho no avião. A partir dali, depois de ouvir em voz alta a narração, tomei a decisão de que a escrita deveria reproduzir uma fala não padrão, com desvios típicos que alguém com pouca escolaridade.

Boa parte dessa narrativa já estava escrita e tive que refazer, modulando essa voz. Acho que até então não havia a decisão de que seria essa prostituta a narra todo esse trecho. Mas depois de decidir como seria a voz, muitas dúvidas surgiram: como fazê-lo sem que parecesse falso, que parecesse um simplesmente um homem branco de classe média tentando imitar a voz de uma pessoa com educação precária? Decidi que o caminho seria a recriação: por mais que tentasse reproduzir erros comuns de um determinado idioleto, sempre seria um simulacro, e foi assim que assumi a voz da prostituta como uma construção que causasse estranhamento no leitor, mas que não fosse uma pantomima risível.

Outro questionamento veio ao refletir se uma personagem como aquelas seria apta a desenvolver os questionamentos necessários para a trama. Era um narrador com um universo cultural limitado, mas que deveria demonstrar uma sabedoria e uma poética próprias. Como fazê-lo verossímil. Foi quando tive acesso ao livro “Push”, da escritora americana Sapphire.

Nele, uma jovem pobre e obesa, Clarice “Precious” Jones, narra sua vida dura a partir das aulas de escrita que tem com uma professora que se envolve com seus dramas. A voz de Clarice era um caminho: no livro, havia os mesmos desvios de inglês, inclusive com rasuras - como havia pensando em usar, com a diferença que no meu caso, as rasuras muitas vezes vão além da reflexão metalinguística, se convertendo em uma nova camada de sentido pelas ocultações que a narradora faz de seus pensamentos.

Em uma entrevista, Sapphire mencionava que um livro que a inspirou bastante na construção da voz de Clarice foi Quarto de despejo, diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus (coincidentemente, Carolina será homeageada pela Balada Literária em 2014, cinco anos depois da viagem em que decidi criar a voz da prostituta, com ajuda de Carolina, que já citei aqui). Naturalmente fui atrás e descobri maravilhado a poética possível de Carolina, seu olhar sagaz para o cotidiano, a despeito de sua pouca escolaridade. Era isso. Tive certeza que o caminho que traçava não era inverossímil. Essa poética crua se vertia na voz da prostituta poderia causar descrença em alguns leitores, mas não era impossível.

Aliás, o preconceito que imaginei que houvesse com a leitura do livro a partir da fala dessa persoangem me incentivou mais ainda a ter mais consciência do compromisso que era recriar uma voz excluída, como a de Carolina Maria de Jesus ou a de tantos outros invisíveis.

Talvez nisso resida o maior desafio: num universo literário em que predominam narradores brancos, heterossexuais de classe média, fazer crível essa narradora negra, de uma classe social menos favorecida, com educação precária e atirada pelas contingências da vida no mundo do vício e da prostituição era mais que um desafio: era uma responsabilidade ineludível.

Mais uma referência que os leitores tiveram da capa. Via José Jaime Junior. Olhem o teto deste clip de Lenny Kravitz, Are you go my way (1993)

 

Referências que desperta a capa do livro nos leitores. Esta veio via Lucas Magno. A noite do espantalho (1974) 

Vazou a capa!
Vazou a capa!

Vazou a capa!

Revisão terminada

Livro entregue para a editora, com todas as revisões possíveis e até uma última que vi de relance, sem querer, nos quarenta e cinco minutos do segundo tempo.

Agora é partir para a reta final: projeto gráfico, capa etc e tal. Esperando ansioso ver a criança pronta.

Revisão: reta final

Agarrado com a revisão da revisão há dois dias.

É muito legal ver quanta coisa você deixa passar, mesmo tendo lido milhares de vezes. Por outro lado, a revisão permite você notar aquilo que não funcionou, os efeitos de sentido que não ficaram claros e que fazem o revisor pensar que você quis dizer outra coisa.

É um exercício imprescindível para qualquer autor, eu acho. Nunca tive noia de não mudar nada o que escrevi. Ao mesmo tempo, o processo de revisão nos faz refletir sobre o que escrevemos e justificar nossas escolhas, negociando com o revisor o que funciona e o que não.

Por exemplo, há um trecho no livro em que usei deliberadamente o discurso indireto livre e as vozes de uma multidão se misturam com a do narrador. Por isso não usei aspas, que normalmente uso ao invés do travessão, para marcar as falas. Neste mesmo capítulo, há uma enumeração de coisas que a turba rouba durante um saque. Havia colocado substantivos comuns e próprios misturados, mas todos em minúsculas, para preservar o ritmo. O revisor encrencou com essas palavras. Será que é porque não funcionou? Devo insistir e manter as minúsculas, ignorando os nomes próprios para preservar o ritmo?

Esses são só exemplos dessas escolhas que a gente precisa tomar no processo. Acho que só se ganha com isso, sinceramente. Mas, voltemos ao livro! Desejem-me sorte nas escolhas.